BRASÍLIA

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Onde mora o setor
boêmio de Brasília?

De onde você quer ler esse texto?

Notas para
uma boêmia adiada

De norte a sul, de leste a oeste. Brasília organiza o espaço como quem desenha uma equação. Para quem chega de fora, o código de siglas e números pode parecer indecifrável: SCS, CLS, SHN, 202, 511. Mas basta atravessar algumas quadras para que a lógica se revele. É contagem. Soma-se, subtrai-se, chega-se.

A racionalidade do traçado modernista distribuiu funções com método: setor bancário, setor de clubes, setor comercial, setor de autarquias, setor de embaixadas. Como se a cidade inteira pudesse ser classificada por vocação, duplicada entre norte e sul. Mas quando se visita, resta uma pergunta simples e quase deslocada: e o setor boêmio? Existe um lugar destinado à vida que acontece depois do expediente?

Lucio Costa sonhava com os Setores de Diversão Norte e Sul preenchendo essa lacuna. No papel, ali nasceria o centro noturno da nova capital. Na prática, a cidade desenhou outros fluxos. A boemia de Brasília não se concentrou num único território. Espalhou-se, buscou seus interstícios.

Ainda assim, talvez o Conic seja o que mais se aproximou desse ideal. Um centro que Brasília não tem — ou quase não teve.

Hoje, sentado numa praça em frente ao Conic, observo. Em torno, garrafas vazias e conversas soltas que significam o fim do dia, mas início da noite. Moradores de rua dividem o espaço com jovens em busca de festa, ambulantes cruzam as calçadas vendendo cerveja, fiéis atravessam a rua rumo aos cultos evangélicos. A cena parece feita de camadas que não se tocam, mas coexistem.

Do lado oposto da calçada, já vejo a fila para a festa da noite. Me misturo ao pequeno fluxo, viro meio copo de uma bebida qualquer antes de entrar. É estranho e familiar: o mesmo pátio onde, anos atrás, descobri meus primeiros passos na noite adulta, quando a cidade ainda aprendia a abrir suas portas pós-pandemia. O Conic guarda um arquivo físico dessas camadas. As histórias que o atravessaram deixaram rastros. Nos anos 1970, ali funcionou a New Aquarius, primeira boate gay do Distrito Federal — um gesto de resistência num Brasil ainda mergulhado na repressão. Nas décadas seguintes, seus subsolos acolheram cinemas, cabines eróticas, bares e prostíbulos, costurando um território de liberdade marginalizada. Nos anos 1980, o Conic foi o epicentro da boemia rebelde: jovens de tribos diversas, música alternativa, arte pulsando nas galerias.

Hoje, o cenário é outro. Boa parte das boates, cinemas e bares cederam espaço a igrejas e comércios populares que funcionam em horário comercial. Mas a vitalidade não desapareceu completamente. Pequenos focos, como Birosca, ainda acendem brasas de vida noturna, sinalizando que a vocação do setor segue latente. Porque o Conic não é um edifício, é um conjunto de ruas, praças e pátios abertos. Um espaço de circulação, tecnicamente público, embora em disputa permanente.

Brasília é uma cidade feita de grandes gestos arquitetônicos. Mas talvez o segredo de sua reinvenção esteja justamente nesses intervalos, nas brechas onde o uso pode ser reinventado. Assim como outras cidades resgataram centros antes esvaziados, Brasília também pode encontrar no Conic um laboratório urbano noturno. Não se trata de apagar o passado, mas de ativar suas camadas, transformando antigas transgressões em novas celebrações coletivas.

A cidade monumental sonhou o encontro, mas foi contida por horários, normas e receios. Talvez baste um gesto: abrir as portas e deixar que o vazio seja preenchido de vida.

agora você
salta dos meus
lábios como os jardins de babilônia.

Quarta-feira. 20h51.

Poucos minutos antes, eu deslizava num patinete elétrico, vindo da 202. Em câmera lenta, se você quiser imaginar a cena cinematográfica. Mas o trajeto durou exatos 12 minutos. Recomendo o aluguel de patinetes elétricos para quem visitar a cidade. Quatro jovens cruzando a Asa Norte em busca do próximo bar. Não necessariamente o melhor, mas o que oferece as bebidas mais baratas.

Eu não bebo cerveja. Mas há algo na energia de quem busca o próximo copo. A caminhada vai degradando a lucidez a cada passo. É essa coreografia quase ensaiada que faz a cidade pulsar.

O destino? 205/206. Babilônia.

O nome sempre carregou um peso mítico. Cresci ouvindo que no sentido biblico, a palavra é carregado do caos, decadência, excessos e rebelião contra Deus. Hoje, a Babilônia é outra: uma entrequadra torta há anos chamada de patinho feio do Plano Piloto.

Sempre me surpreende como, quando alguém bonito morre, logo vem o comentário: “Tadinho, mas era tão bonito.” Minha mãe, sempre prática, costuma responder: “Uai, só feio que tem que morrer agora?”

Penso nisso quando falam daqui. Há uma beleza desorganizada naquilo que não saiu como o planejado. Em Brasília, o improviso vira charme.

Estamos chegando. Conversas soltas. É quando minha amiga Fernanda comenta de forma intimista para seu marido "esse bar tem a cara do fulano, né?"

Não lembro o nome de fulano, então vamos chamá-lo assim. Como se a cidade ouvisse, o fulano surge logo em seguida, descendo as escadas. A cidade tem essa eficiência perversa em reciclar rostos. Você pode cruzar o Eixão, migrar entre as cidades satélites, caminhar em novos parques, nadar do outro lado do lago, mudar de círculo social, e mesmo assim os personagens retornam. Como um algoritmo emocional que se recusa ao acaso.

No meio das conversas, fofocas e luz amarela projetada sobre cadeiras de praia, sem perceber, arruinávamos um encontro alheio. Engolimos o casal que tentava se formar entre fulano e, agora, o sicrano.

Liberdade do desembarque
com destino a solitude

A liberdade no desembarque, quando o destino é sua própria companhia, pode arder sob a pele

Se você está sozinho no desconhecido, não fuja


Respire fundo

Deixe o vazio encher seus ouvidos como um ruído morno

Sinta o chão sob os pés, o peso do próprio corpo

A solitude é essa febre silenciosa que queima devagar

Abrace a vertigem

É nesse calor, sem testemunha, que o voo acontece.

Praia sem mar: a cadeira dobrável como patrimônio afetivo do quadradinho

Texto por: Flavia Fernanda

Em 1965, Brasília surgiu com seu formato de avião, desenhada por Lúcio Costa e arquitetada por Oscar Niemeyer. Muito concreto, muito planejamento e nenhum mar por perto. O litoral mais próximo fica a cerca de mil quilômetros, lá em Vitória (ES). Sem praia, os brasilienses adotaram outro símbolo: a cadeira de praia. E a levaram para os lugares mais diversos do quadradinho.

Parques, Eixão do Lazer aos domingos, competições de crossfit, calçadas, gramados, até dentro de casa. A cadeira de praia virou símbolo afetivo. Móvel de descanso, ponto de encontro, parte do cotidiano candango.

Essas dobráveis, leves e coloridas são quase uma extensão da casa brasiliense. Estão nos gramados das superquadras, no Zoológico, no Parque da Cidade, na beira do Lago Paranoá. O brasiliense trouxe a praia para o cerrado. Sem mar, mas com muita convivência ao ar livre.

Edileuza contou que costuma ir à Praça da Santa Maria (DF), a famosa Santinha, com a filha e o marido. As cadeiras vão sempre junto. Enquanto a filha brinca, ela aproveita o momento.
sentar na sombra e ver o tempo passar. Com 420 hectares, é o quintal de quem mora no Plano e destino para quem vem de fora.Uma pesquisa de 2022 do Instituto Brasília Ambiental mostrou que 91% dos moradores frequentam áreas verdes pelo menos uma vez por semana. Não surpreende. Com um dos maiores índices de área arborizada por habitante no país, o Plano Piloto convida mesmo a sentar e ficar.

Mais que praticidade, a cadeira de praia carrega um afeto compartilhado. Basta olhar para as filas de cadeiras sob a sombra dos ipês, no Parque da Cidade ou nas praças: não é só descanso, é convivência.
Famílias se reúnem, vizinhos conversam, amigos ocupam o espaço. A cadeira sempre está ali, abrindo o cenário para o lazer inventado pelos brasilienses.

Áreas verdes (mas nem tanto para todos)

No Plano Piloto, o verde é quase obrigatório. Parques enormes, praças arborizadas, ruas onde as árvores formam túneis de sombra. Brasília tem 53 metros quadrados de área verde por habitante, mas, na prática, esse número se concentra bem no centro.

Fora do Plano, o cenário muda. Em muitas Regiões Administrativas, o verde é bem mais raro. Segundo o Instituto Brasília Ambiental, o Plano Piloto tem cerca de 25% de cobertura arbórea. Nas RAs, a média cai para 9%.

Sem parque, o lazer ao ar livre vira improviso. Ainda assim, o brasiliense dá um jeito. Aos domingos, com passagem de ônibus gratuita, muita gente atravessa a cidade para aproveitar as áreas verdes. E a cadeira vai junto.

Alguns dos cantinhos mais populares para abrir a canga e esticar as pernas:

Zoológico de Brasília

Sombra boa, cheiro de mato, crianças correndo e as cadeiras espalhadas. Rolê clássico com lanche coletivo.

Eixão do Lazer

Domingo é dia oficial de abrir a cadeira. Correr, pedalar e — claro — cervejinha. O lazer em modo brasiliense.

Orla do Lago Paranoá

Ermida Dom Bosco, Pontão, Península dos Ministros. Sol batendo na água, biquíni no fim de tarde e muita cadeira virada pro lago. Brasília sem praia? Só no mapa.

Parque da Cidade

Lugar onde todo mundo já fez algo. Caminhada, piquenique, show, encontro.

Parque Olhos d’Água

No coração da Asa Norte. Refúgio de corredor, mãe com carrinho de bebê e senhorzinho de rede. Sempre
tem cadeira aberta no gramado, fim de tarde, cachorro por perto.

Parque Ecológico Águas Claras

No meio dos prédios, um respiro verde. Encontrinhos de amigos e dates sob as árvores.

Parque Saburo Onoyama (Taguatinga)

Conhecido por quem mora na região, pouco explorado por quem vive no Plano. Lago, sombra, trilha, criança jogando bola e cadeiras alinhadas sob os ipês.

Onde seria o primeiro encontro do seu amor de outono?

Caso você tenha tido mais sorte que eu no Tinder, separei algumas sugestões de lugares ótimos para um encontro romântico.

Acredito que todas as cidades guardam espaços para romances marcantes — aquelas histórias que a gente conta depois para os amigos: um carinho intenso que dura mais de oito horas, mas acaba antes de completar uma semana. Existem muitos tipos de viajantes, com rotinas e interesses variados, e também vários lugares que podem ser o cenário desses encontros. Vamos por partes.

Não falarei da minha experiência pessoal — como disse, não tive sorte. Talvez pela correria de produzir este texto, ou por estar sempre rodeado de amigos.

Os amores de estação — aqueles encontros rápidos, em viagens de fim de semana ou férias de verão — nem sempre acontecem. Penso que as pessoas que cruzam nosso caminho já estavam, de algum modo, predestinadas a isso. Nem sempre conhecemos gente nova.

Brasília tem seus próprios códigos. Por não ser uma cidade caminhável, raramente passamos por algo por acaso e nos encantamos. Às vezes, os lugares estão escondidos atrás de prédios ou funcionam em horários muito específicos. Fico a pensar se...

Jazz, vinho e cangas

Começo pelo primeiro local que recomendo como ponto de partida. O período de estiagem brasiliense, entre o fim de abril e o começo de setembro, concentra uma série de eventos que quebram a rotina: festivais de música espalhados pela cidade. Em alguns fins de semana de agosto, tantos eventos acontecem simultaneamente que o público parece se dividir.

Às quintas e sextas, na ponta do Eixo Monumental há apresentações de jazz quase escondidas. Traga sua canga, cadeira de praia e um vinho. Luz baixa, música ao vivo.

Estou aqui com minha melhor amiga. É um bom lugar para ir sozinho ou com amigos. Um ambiente tranquilo para relaxar depois do trabalho. Viria toda semana como um pequeno ritual, mas faltar algumas faz com que o prazer de voltar não se perca. Deitado na canga, mochila como travesseiro, mãos sobre o peito, pernas formando um “L”, observo as estrelas entre as copas das árvores iluminadas em vermelho. Brasília tem muitos pontos banhados por essa luz. Ao fundo, uma versão cover de jazz da Billie Eilish. Bebemos vinho direto da garrafa — sem taças.

O clima é romântico para quem busca algo. Me intimido e não pergunto a ninguém que outros lugares recomendariam para um encontro. Todos parecem presos em suas intimidades, risos e conversas. Entre um gole e outro, sigo cumprindo minha missão de sugerir lugares.

No caminho para o banheiro químico, puxo conversa com algumas pessoas. Preciso cumprir o papel: recomendar lugares para, sejamos honestos, você dar uns beijos.

Ignoro as opções óbvias de restaurantes, bares e cafés, a não ser que sejam genuinamente emblemáticos da cidade. Assim, deixo de lado todas as cinco recomendações que não se encaixam aqui e vamos ao que realmente interessa:

Lugar 1: Cine Brasília

Um clássico. Nove em cada dez especialistas recomendam um cinema para um primeiro encontro. No caso de Brasília, o Cine Brasília talvez seja um pouco diferente do que pessoas da minha idade conheçam Brasil afora. Se estiver de carro, pode optar também pelo Cine Drive-In, que foi, por um tempo, o último cinema a céu aberto da América do Sul

O charme aqui está na programação despretensiosa, que não se limita a lançamentos comerciais — e tudo
isso com ingressos acessíveis.

Para os amantes de arquitetura, vale lembrar: as poltronas são assinadas por Sergio Rodrigues.

Lugar 2: Beijódromo

Um espaço dedicado a beijos e serestas. Sempre me fascina a literalidade de um local pensado para o ato de beijar — simples, direto e ambíguo.

Localizado na Asa Norte, dentro da Universidade de Brasília, o Beijódromo foi uma ideia de Darcy Ribeiro com seu amigo arquiteto Lelé dedicado às vivências da comunidade acadêmica.

Decidi visitar esse, quando entro no Beijódromo tenho minha primeira grande decepção: não há ninguém se beijando. Talvez eu e você, leitor, possamos ser os primeiros.

Lugar 3: Parque da Cidade

Se a ideia é clichê, como nos filmes da sessão da tarde, nada melhor que um piquenique. Localizado no centro da cidade, é o maior parque urbano da América Latina.

É um espaço aberto que permite conversar, observar o movimento insano dos fins de semana, muitas vezes com programação cultural, e até tirar uma soneca.

Para os fãs de Eduardo e Mônica, este lugar é um verdadeiro cartão-postal.

Praças que eu gosto

Editoria por Pedro Torres

CLN 107 | CLN 107, Blocos B/C

As passagens entre blocos comerciais raramente recebem o devido carinho, se tornando apenas um corredor vazio, uma verdadeira “sobra” de espaço — o que é bastante preocupante quando pensamos que essas passagens acontecem algumas dezenas de vezes ao longo das asas sul e norte.

Já nesse trecho da 107 norte, é sem tirar nem pôr! O que poderia ser um espaço apenas de passagem se torna um ponto de encontro e de permanência. Tem bancos sombreados, mesas com tabuleiros de xadrez, paginação geométrica no piso de pedras portuguesas, uma escultura super interessante para apreciar de vários ângulos, um jogo muito esperto de escadas e plataformas elevadas que entretém qualquer criança, e até mesmo um palco que sempre recebe apresentações musicais — já assisti a várias, de jazz a piseiro. Mérito dos bares e restaurantes que ficam junto à praça: são eles que trazem o público e organizam as apresentações! Sem gente, não tem praça. Até bloquinho de carnaval acontece por aqui, é lindo de ver.

Ainda que sem nenhum atrativo extraordinário — porque convenhamos que praça com banco, mesa e palquinho não é algo raro de se encontrar por aí — esse espaço prova que mesmo o básico, quando se preocupa em fazer um bom desenho e usar materiais de qualidade, pode ser memorável. Eu, se morasse nessa quadra, teria o maior orgulho — e adoraria ouvir jazz entrando pela minha janela.

PRAÇA DO POVO | Setor Comercial Sul, Quadra 3

De longe, uma das mais felizes intervenções no espaço público de Brasília. Antes era um conjunto de banquinhos e uma escadaria sem qualquer importância, esquecíveis. Reformada em 2021, virou um lugar vivo, com um desenho de mobiliário cuidadosamente pensado para os skatistas — bancos com cantoneiras metálicas para aguentar o atrito, caixotes, rampas, corrimãos, etc. Mas o que mais chama a atenção de quem passa por ali são essas coberturas amarelas cheias de personalidade! Claro que todo mundo adora uma sombra de árvore, mas um espaço pensado para o skate não faria o menor sentido se estivesse sempre cheio de folhas caídas no chão, né? A solução é bem esperta, e além de trazer sombra pros frequentadores, vira um marco visual na paisagem urbana — uma grata surpresa pra quem vira a esquina, um ponto de referência que nos convida a chegar mais perto e sentar por alguns minutos.

Claro que não é suficiente para revitalizar o SCS, que sofre de problemas mais graves, que apenas uma boa praça não é capaz de resolver sozinha. Mas é um baita primeiro passo na direção certa! Quando penso na Brasília que quero pro futuro, ela se parece muito com isso aqui.

PRAÇA PADRE ROQUE | Núcleo Bandeirante

Essa cara de “Praça da Matriz” de cidade do interior não é em vão: aqui era, de fato, o local da Matriz São João Bosco, uma das primeiras igrejas do Distrito Federal, erguida na época em que o Bandeirante ainda se chamava Cidade Livre e era um acampamento temporário para os candangos. O acampamento virou cidade, e o descampado na frente da igreja virou praça. A paróquia original, em madeira, não existe mais, mas no mesmo local foi construída uma nova. E a praça foi feita à moda do interior, tradicionalíssima, com canteiros simétricos e sebes de pingo-de-ouro.

A calçada é ampla, enfeitada de desenhos em pedra portuguesa. Tem um auditório elevado, que abriga cantata de Natal, bloquinho de carnaval, festa junina e, nas horas vagas, vira uma pista de skate informal — e ainda há uma pista de skate de fato a alguns metros dali. Aqui também estão a administração regional, uma porção de hotéis, restaurantes, mercado, biblioteca pública, ginásio de esportes, salão comunitário e a feira
permanente — tudo junto e misturado, antítese da setorização artificial de Brasília. Ah, o “mercado” listado acima não é qualquer mercado, é o Mercadão, desses antigos, com quiosques que têm de tudo — de grãos a calçados, de relógios a costureira, de cabeleireiro a boteco.

Me parece bonito pensar que na década de 50, quando o DF era só cerrado, tanta gente saiu dos interiores para construir o sonho da capital modernista e, quase sem querer, fizeram nascer também uma cidade tradicional, como aquelas de onde vieram.

PRAÇA PORTUGAL | Setor de Embaixadas Sul

Essa é uma obra de arte feita a 6 mãos modernistas e portuguesas — e que, por sinal, fazem jus à fama que carrega Portugal de sobrenomes engraçados. A saber: Chorão Ramalho (arquiteto), Barata Feyo (escultor do monumento ao Infante Dom Henrique) e Espiga Pinto (artista plástico que fez o desenho de piso). O resultado desse trabalho conjunto é essa praça monumental, cheia de estilo e… desconhecida. Não é raro encontrar pessoas que moram na capital há décadas e nunca sequer ouviram falar desse lugar. E não é difícil entender o porquê.

Infelizmente, nem a melhor das praças se sustenta sem um entorno vivo. Nesse caso, a Praça Portugal está quase fadada ao abandono, já que está num setor ocupado apenas por embaixadas, em meio a vias rápidas, muros cegos e bolsões de estacionamento enormes.

Nenhuma residência ou comércio num raio de centenas de metros. Sem nada pra fazer por aqui, ninguém frequenta e ninguém conhece. Curiosamente, esse vazio reforça o tom de obra de arte: ao invés de ser uma praça convencional, inserida no dia a dia, a Praça Portugal é uma escultura de proporções urbanas, feita para ser visitada e apreciada intencionalmente.

Como urbanista, é quase dever do ofício apontar que ela não funciona bem como praça. Mas que ela é linda, ninguém pode negar.

Carta ao leitor

Existe uma sensação estranha quando se está com vinte e poucos anos. Uma mistura de estar perdido, atrasado, num período que é, ao mesmo tempo, vasto e apertado. Mas que também carrega a liberdade de fazer suas próprias escolhas, decisões e reflexões, que aos poucos viram autoconhecimento. É uma fase em que a gente gira em círculos, sem muita pressa de se encontrar, deixando que, em algum momento, a vida nos encontre e nos ensine a viver.

Eu não sei exatamente quando isso começou, mas há algum tempo os pontos turísticos deixaram de ser prioridade nos meus roteiros de viagem. Foram sendo substituídos por pequenas descobertas sobre como cada região chama o que seria mandioca, aipim ou macaxeira. Talvez tenha sido quando reconheci o arquiteto que projetou um prédio abandonado no Rio de Janeiro. Ou quando percebi que fotos de prédios, floriculturas, gatos e comidas tomaram conta da minha galeria depois de uma viagem curta, feita por puro tédio.

O Bacuri nasceu um pouco disso. Dessa vontade meio obsessiva (e, confesso, um pouco cafona) de reparar no que geralmente passa batido. Nos lugares que a gente não programou visitar, mas entrou porque tinha tempo. De mudar o trajeto de casa para o trabalho só para ativar a mente e descobrir que ganhou 5 minutos de atalho e ainda achou uma cafeteria escondida entre uma loja de noivas e uma barbearia.
Brasília é esse primeiro labirinto registrado aqui, onde pude caminhar sem destino, sem expectativa de nada — uma dádiva num mundo que cobra produtividade e exige uma agenda lotada de 48 horas por dia.
Aqui, entre janelas e arcos tortos, ou nas cadeiras de praia espalhadas pelos gramados, encontro refúgios que não cabem nos guias turísticos nem nos cartões-postais das redes sociais. São pedaços de cidade que falam sobre gente que ri, brinda. Sobre quando, de repente, você fica sóbrio no meio de uma festa ou se pega conversando na fila do banheiro químico.

Não se trata de encontrar respostas, mas de perceber que a vida adulta é feita de desvios, encontros inesperados, e de um certo conforto em saber que, no fundo, estamos todos meio perdidos nessa dança das cadeiras sem música.

É para quem viaja e quer, sim, visitar o que todo mundo recomenda, mas também sente prazer em errar a rua, dobrar uma esquina à toa e brincar de turista na própria casa.
Se eu pudesse te dizer uma coisa, meu caro e novo melhor amigo, leitor: vale a pena abraçar essa obsessão quente e um pouco dolorosa de se permitir voar sozinho. De ir, ver, escutar, observar e simplesmente estar.

Bacuri não é um guia. Não tem passo a passo, não tem check-list. É quase um mapa mental — desses que a gente anota no bloco de notas do celular — cheio de desvios, observações aleatórias e pontos de interrogação.

Que este espaço seja um convite para você se perder no percurso, sair do piloto automático.

E, quem sabe, nesse caminho, você perceba que a gente só se descobre tropeçando. E que, no fim, não estamos tão sozinhos assim.

Boa leitura e boa caminhada!

Keven Jordão
Editor-chefe.

Escreva para nós

Bacuri é um blogazine que, a cada edição, se passa em uma nova cidade ou espaço. O objetivo é criar um refúgio imaginário, um lugar para escapar da rotina e descobrir fragmentos fora dos cartões-postais tradicionais. Ao mesmo tempo, funciona como um guia de pensamentos soltos, que refletem a experiência de estar perdido e se encontrar na vida adulta.

É para quem está na casa dos 20 anos, navegando entre festas diferentes e velhos hábitos, tentando resgatar partes de si mesmo que ficaram pelo caminho. Para quem já ficou sóbrio no meio da festa, cercado por amigos que conheceu numa viagem qualquer.

Bacuri não entrega um roteiro ou um passo a passo, mas convida o leitor a um passeio aberto, cheio de desvios, encontros inesperados e pequenas histórias.

No final, pode parecer uma versão ampliada de um tweet ou um álbum de fotos tortas de um passeio pelo parque. Mas acima de tudo, é um convite para que você se encontre em cada leitura.

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